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22 Abr

Cerquido Village & Spa: casas com serra dentro

No Cerquido, varanda na Serra d’Arga com vista para o Vale do Lima, dormimos na Casa da Serra.

A noite está a cair quando chegamos lá acima que não é o topo da serra mas quase que parece. Adiantamo-nos e não temos ninguém à espera. Pela rua que mais parece uma varanda para a paisagem não se vê vivalma e as poucas casas parecem quase todas fechadas. Sabemos que estamos no sítio certo porque há construções que o indicam: os bungalows que vemos como que pendurados na encosta; do outro lado da rua estreita, a Casa da Serra, recentemente restaurada ergue-se num patamar superior seguro por muro de granito. É irresistível percorrer as “margens” e virar a máquina fotográfica para a paisagem: diante de nós está o Vale do Lima que com a luz a esvair-se na noite ganha novos contornos a cada minuto que passa.

Se ficamos encantados com as vistas, não somos os únicos. A Filipe Pimenta, o proprietário do Cerquido Village & Spa, pouco mais dois anos de funcionamento, também foi a natureza envolvente desta “varanda” do Cerquido que cativou. Ou melhor, apaixonou porque é de “projectos de paixão” que falará horas mais tarde, ao jantar – noutro local de paixão, o Centro Equestre de Vale do Lima (CEVL – e deste já falaremos). Por isso, decidiu investir neste lugar da freguesia de Estorãos. Não tinha qualquer relação com o lugar até se apaixonar por ele e pela Serra d’ Arga. “Quis fazer algo diferente que acabe por trazer dinâmica económica à região”, explica.

E então começou o Cerquido Village & Spa, com a Casa da Serra onde ficamos instalados. Dois andares, jardim – tudo bem no alto, para a serra entrar e nós fazermos parte dela. A pedra do exterior tem o contraponto no branco do interior, que está rigorosamente dividido a meio pela escadaria. No rés-do-chão, temos uma cozinha ampla toda equipada (incluindo, por exemplo, máquina de café e de lavar louça) e com mesa corrida a pedir longas refeições (onde nos espera um “cesto básico”, croissants, pão, manteiga, compotas, sumo de laranja, fruta); e uma sala com recuperador de calor e saída para o jardim onde outra grande mesa faz ansiar pelo calor – o rés-do-chão completa-se com uma casa-de-banho. No segundo ficam os dois quartos, cada qual com a sua casa-de-banho completa cada qual com as suas janelas, as principais para a paisagem, claro. A decoração dos quartos mantém uma ligação ao mundo antigo, com as camas de cabeceiras trabalhadas, mas com a pirueta contemporânea dada pela cor que as pinta e dá o tom aos quartos – um azul e outro verde água. E todo o universo minhoto se espalha pela casa com “dulcineias” (sim, a amada de D. Quixote) de cerâmica com referências aos lenços dos namorados (do atelier VianaCabral) e estes plasmados em almofadas, ou com a cerâmica de Mário Rocha, artista com atelier em Arga de Baixo, que em Agosto se abre para a “Arte na Leira”. Só falta aquecimento central para o conforto ser total.

A Casa da Serra foi o ponto de partida, mas está longe de ser o de chegada – outras casas já foram compradas em Cerquido, onde a população é cada vez mais escassa. Mas, entretanto, há dois bungalows de madeira, ao estilo nórdico, tanto no exterior com o pequeno deck, como no interior claro, minimalista e funcional – são pequenos, mas com dois quartos. Um está ao nível da rua, o outro mais entranhado no vale onde por estes dias corre um ribeiro que se alimenta de uma queda d’água transgressora, daquelas que incham no Inverno para amansar depois, e é a mão que embala noites e dias. A completar este núcleo, já que tudo está a poucos metros de distância, uma pequena piscina interior com vista total sobre o vale e um jacuzzi, e um deck-lounge do lado de fora – sofás, espreguiçadeiras, candeeiros, guarda-sol e um varandim transparente para que nos sintamos a flutuar sobre o vale.

A oferta do Cerquido Village & Spa não se fica por aqui: há outra ainda aqui no Cerquido e outra isolada em plena serra, nos Quartéis de Santa Justa. Mas esses só conheceremos no dia seguinte. A cavalo, e aqui entramos noutra paixão de Filipe Pimenta –que se mistura com o Cerquido Village & Spa, onde se oferecem “experiências” (adaptáveis) que incluem, entre outros, cavalos. Desde logo, refeições no Picadeiro que é o restaurante do CEVL (Ponte de Lima) e cuja sala tem uma parede de vidro sobre o picadeiro. Nós jantamos aqui: damos uma volta pelas boxes onde 50 puros lusitanos vivem e sentamo-nos à mesa de olhos postos nos volteios dos cavalos em treino de dressage. “Temos um conceito mais moderno, aberto ao público que pode ver os cavalos a trabalhar”, explica Filipe Pimenta.

É na Quinta dos Pentieiros que a equitação se desfruta longe da rigidez competitiva. Neste espaço municipal com múltiplas infraestruturas de lazer que permitem desfrutar melhor da Área de Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos, a parte equestre é da responsabilidade do CEVL. É a partir daqui que se dinamizam desde baptismos a cavalo ou aulas avulsas, a vários itinerários a cavalo (de cinco ou oito dias) e passeios de charrete ou a cavalo. Nós partimos para um passeio que começa entre aldeias, atravessa a A27 e entra na serra para não mais dela sair até ao Monte de Santa Justa. O destino são os antigos Quartéis de Santa Justa onde nos espera um piquenique – entretanto, acabamos por montar três éguas distintas (primeiro a Fénix, a mais jovem, depois a Xavala e, no final, a Zita, a mais experiente – e digamos que tal se deveu à nossa falta de experiência e à sua percepção por parte dos animais), garranos. Ou seja, a raça autóctone e melhor adaptada a estes terrenos.

Estão felizes, à sombra das poucas árvores que se erguem neste planalto, já com feno e água frescas diante delas. “Estão em casa”, nota Inês da Franca, a tratadora, monitora, guia, neste troço da Serra d’ Arga, completamente isolado, sobre o Vale do Lima.

Também os Quartéis de Santa Justa pertencem ao universo Cerquido Village & Spa e estão intimamente ligados à tradição equestre de Ponte de Lima. Foi albergue de romeiros e peregrinos durante as festas de Santa Justa muitos dos quais chegavam – e chegam (terceiro fim-de-semana de Julho) – a cavalo. Continua a estar ligada aos cavalos sendo muitas vezes o alojamento dos turistas equestres, oferecendo dois quartos duplos e uma camarata com sete camas, apoiados por uma cozinha. A madeira é o material dominante nos interiores minimalistas, confortáveis – a capela está no centro do espaço murado e associada ao culto de Santa Justa e Rufina.

Voltamos à casa de partida, ou seja, ao Cerquido, para ver a última propriedade Cerquido Village & Spa. Junto ao centro de interpretação (apenas painéis informativos), a Casa do Cerquido, com o pátio pétreo (mesa e bancos a condizer) tem três quartos, duas casas de banho, cozinha equipa e sala com recuperador de calor.

“Ainda não temos o projecto totalmente concluído”, refere Filipe Pimenta. Estão a ser desenvolvidos novos pacotes para dar a melhor experiência da serra. É que, diz, “a serra tem muito para dar”. Desde a religião à biodiversidade, de rotas para caminhadas, algumas mais radicais, à exploração das minas de volfrâmio (nos vales é possível ver edifícios abandonados que lhes pertenciam). Além dos mistérios, como da ligação de Santa Justa e Santa Rufina, duas mártires da Sevilha do século III, à Serra d’Arga e às cruzes que se erguem nos montes ou os rituais de fertilidade que sempre se associaram à região. Mas, se calhar, esses são para manter secretos – o que não é o caso do Cerquido Village & Spa, “o único segredo que não é para guardar”.

in. Fugas – Público

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